Artista em destaque
Nadia Starikoff
O que acontece com pessoas como eu que estão entre todas essas diferentes categorias? O que isso faz ao próprio conceito de nacionalismo, de raça, etnia e até mesmo de gênero? Eu estava tentando articular e criar uma teoria de existência nas fronteiras.
Gloria Anzaldúa. Interviews. 2000, 214.
SEDIMENTAR
Nadia Starikoff,
Nadejda,
Nayu
Santiago, Chile, 1972
Nadia Starikoff, desde pequena, conhece a vivência da fronteira, a margem invisível que separa paisagens, regiões, terra natal, enfim, a pátria à qual pertencemos. Vive entre o Chile e Brasil, entre seus 5 e 17 anos de idade. Filha de mãe russa, que imigra da China para o Chile, Nadia encontra na reflexão da escritora Gloria Anzaldúa, em sua obra Borderlands/la frontera: la nueva mestiza (1987), a motivação para a presente exposição, SEDIMENTAR, que inaugura em 22 de maio na Casagaleria, em São Paulo.
Anzaldúa nasceu no sul do Texas e viveu próxima à fronteira geográfica México-Estados Unidos. Define a localidade como “um entre-lugar geográfico, um não-lugar no mundo, onde fronteiras são espaços multilíngues, ocupados por sujeitos híbridos/mestiços e afetados por várias culturas, fazendo com que pertençam a todas as culturas e ao mesmo tempo nenhuma.”[1]
Nadia, em suas inúmeras passagens pelos diversos territórios, percebe que sempre viveu entre fronteiras e que esses mesmos limiares impediam-na de se enraizar numa cultura própria iluminada, por exemplo, por luzes do amanhecer chileno, ou do anoitecer brasileiro; em um reconhecimento genuíno da vegetação tropical brasileira ou da vegetação mais árida que se estende pelo território andino. Starikoff quer interrogar esteticamente o lugar que não permanece, as fronteiras vividas que tecem as percepções do entre-mundo cultural ou do não-lugar no mundo, como diz Anzaldúa. Primeiramente, a artista se vê em constante estado de transformação. Entre as coisas do mundo, não vive um estado ou outro, procura, além disso, outra forma, outra con–formação..
Nadia Starikoff nos convida à mostra SEDIMENTAR apresentando, logo de início, as Matrioskas, sua origem maternal russa. Depois, obras etéreas, reflexos de memórias apagadas e dependuradas. Pinturas de um mundo colorido e iluminado surgem, com resíduos de microcosmos imaginários:- paisagens cheias de memórias e fronteiras do pensamento. Outras obras com rasgos, camadas e sobreposições não propõem reparar as fraturas, ao invés, querem incorporá-las, trazendo um trânsito contínuo entre interior e exterior, perda e reinvenção, entre as diferenças.
É nesse horizonte que se instala Objeto-poema.
Sempre em busca do acolhimento, Nadia se envolve em névoas que a enredam e a tensionam. Na dialética acolhimento/névoa mobilizará a obra procurando a poesia da sua intenção, não como resposta, mas como operação de construção de linguagem.
Agora, jogamos com Nadia Sarikoff!
A artista nos convida a participar do Objeto-poema movimentando as peças na busca de uma face de sua identidade.
Sedimentar não quer concluir, quer sustentar o que está em trânsito — entre estados, formas e identidades.
[1] MOREIRA, Gabriel Caetano, Traduzindo Borderlands/La Frontera: The New Mestiza. Um atravessamento pela inespecificidade de gênero e a tradução. Trabalho de Conclusão de Curso. Universidade de Brasília. 2022.
Obras em destaque
Sutileza
Sutileza
Técnica mista s/ tela
50 x 60 cm
2023
A Sutileza do Etéreo III, da série A Leveza
A Sutileza do Etéreo III, da série A Leveza
Técnica mista s/ tela
80 x 160 cm
2024
Translúcida, da série A Leveza
Translúcida, da série A Leveza
Técnica mista s/ tela
60 x 80 cm
2024