Exposição: ESTRUTURAS INVISÍVEIS, 2025
Artista: Giulianno Montijo
Texto crítico: Loly Demercian
Giulianno Montijo é bacharel em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), com conclusão em 2003, e pós-graduado em Licenciatura em Artes Plásticas pela mesma instituição, em 2004, sob orientação de Lisette Lagnado. Sua trajetória artística é marcada por ampla participação em exposições nacionais e internacionais, incluindo mostras como Anuais de Arte FAAP (33ª, 34ª e 41ª edições), Projeto Anita Malfatti (FAAP, 2004), TRANSVERSAL (Galeria Baró Cruz, 2004), PLAYGROUND (2005), além de eventos como o MALA – Movimento Artístico Liberdade na Arte, SP Arte, Rumos Itaú Cultural, Bienal de Havana (2006), When Lives Become Form (Hiroshima, 2009), entre muitos outros. Mais recentemente, suas investigações visuais se expandiram para o campo da arte digital e do universo NFT, com exposições em Nova York, Frankfurt, Roma e Toronto (2022–2023), explorando linguagens imersivas e ambientes virtuais.
A exposição Estruturas Invisíveis apresenta desdobramentos da pesquisa visual e conceitual do artista a partir de uma metodologia centrada no campo expandido da cidade e seus resíduos. O lixo urbano — matéria descartada, invisibilizada, mas presente — é o ponto de partida para uma reflexão crítica sobre os modos de produção, consumo e descarte na contemporaneidade. Montijo se apropria de materiais como isopor, fios elétricos e cabos descartados, reconfigurando os em instalações escultóricas que evocam arquiteturas fantásticas: estruturas híbridas entre robôs, nuvens e cidades imaginárias, onde os resíduos ganham forma e expressão poética.
A escolha pelo isopor branco, entrecortado por fios escuros que serpenteiam pelas estruturas, provoca uma sensação ambígua: ao mesmo tempo em que remete à leveza e ao silêncio, também carrega a presença inquietante de algo que insiste em viver, mesmo no que foi descartado. A iluminação compassada do ambiente da exposição intensifica essa ambiguidade: as luzes, embora tentem criar aconchego, revelam um espaço frio, desprovido de afeto — como se a tentativa de aquecer o ambiente estivesse sempre à beira do fracasso.
A cidade, para Montijo, não é apenas tema, mas também suporte e linguagem. Sua obra nos convida a repensar o planejamento urbano, o acúmulo de resíduos e, sobretudo, a função simbólica da arte como ferramenta de transgressão e reinvenção de sentido. Há em seu trabalho um impulso utópico, porém sem ilusões: o que se constrói é uma cidade que emerge do lixo, uma cidade que, embora idealizada, carrega as marcas da distopia contemporânea.
Nesse sentido, sua produção se aproxima das reflexões propostas por Ítalo Calvino em As Cidades Invisíveis. Para Calvino, a utopia é uma forma de habitar o espaço em crise — não como um lugar ideal, mas como um não-lugar que resiste, que se reconstrói às margens da realidade. Montijo parece propor o mesmo: uma cidade descontínua, feita de fragmentos, de resíduos, de silêncios e sinais indecifráveis. Uma cidade possível, mas apenas para quem se dispõe a encontrá-la nos interstícios do mundo visível.
Finalizo com uma citação de Calvino que ecoa o espírito desta exposição:
“Às vezes, basta-me uma partícula que se abre no meio de uma paisagem incongruente, um aflorar de luzes na neblina, o diálogo de dois passantes que se encontram no vaivém, para pensar que partindo dali construirei pedaço por pedaço a cidade perfeita, feita de fragmentos misturados com o resto de instantes separados por intervalos, de sinais que alguém envia e não sabe quem capta.”
(Calvino, Ítalo. As cidades invisíveis, p. 147)