“ALGUÉM VEM COMIGO?” – Exposição de Gaya Rachel
A princípio, dito assim, é possível se confundir. Gaya, isso é uma oferta ou súplica? Proposta ou rogo? Pedido ou convite? Cuidado ao borrar as fronteiras entre coisas que deveriam estar claras: quando eu desenhar minha mão, tenha em mente que ela é minha. Recorde-se que é meu nome no frasco de remédios controlados, e que o pesadelo que tive é meu. Eu sou diferente de você, lembre-se disso. Separe bem os dois lados: o dentro e o fora.
Comecemos pelo primeiro; veja o corpo através de desenhos anatômicos e entenda o interior. Compreender é importante: aqui me falhou o fêmur, lá me gastaram as juntas, logo ali me quebrou a voz. Quantos detalhes em perfeita ordem tem um só coração bagunçado… Espere, esse é o meu ou o seu? Tão frágeis quanto as minhas são as barras dessa gaiola. Aqui nunca morou um pássaro: ao invés dele, vive a imagem do monstro, e sua gaiola é o espelho por onde vejo o lado de fora.
Ufa. Depois de entender por dentro, já podemos sair um pouco. Se cada um de nós é ilha, e ao redor nos cerca o mar, é necessário o barco para chegar ao outro. Toda mão que dobra papel é de criança, e o convite ao embarque está feito desde que encaramos a folha virgem. Se vamos alguns, e formamos frota, e carregamos material de ajuda humanitária, e cruzamos os embargos que nos separam, talvez possamos chegar ao porto onde nossos olhos foram convocados, à margem onde nos querem. O convite é feito – para quem quiser ouvir – por crianças brincando na Palestina, que tentam atravessar do rio ao mar sem barcos de papel; o pedido é sussurrado pelas 27 mulheres vítimas de feminicídio no estado em janeiro de 2026, sempre-vivas na luta contra a violência de gênero; e hoje, exposta, a proposta é posta por quem oferece de si a falha.
Ao encarar a frase bordada, você vem comigo?, lembro daquele instante em que fui chamado. Muitas vezes vamos, claro, pois certamente já foram conosco. Mas quiçá a operação aqui presente não seja compensatória, como quem dá o que recebe, num ajuste de contas com o karma ou espécie de corrente do cuidado. Quem sabe o pedido seja em si uma oferta. Quando um amigo grita “alguém vem comigo?”, no instante em que seus olhos encontram os nossos e perguntam em súplica “você vem comigo?”, suspeito que ele nos oferece algo que nós mesmos desejamos.
Seria uma ponte entre o dentro e o fora? Não, o trabalho de Gaya Rachel não cria pontes entre nós. Mais bem ele descama uma crosta, a craca dura dos dias, dissolve a casca grossa que nos separa e impede que a gente se confunda. O convite está feito. Você vem com a gente?
Mateus Lana