Exposição: Das Negativas – Bordados, Correntes,
Tecituras
Artista: Marietta Toledo
Texto crítico: Carmen Aranha e Loly Demercian
A trajetória artística de Marietta é marcada por sua participação em várias mostras,- a individual Existir, Girar, Resistir (2022) cujas obras apresentadas foram produzidas durante a residência artística em Épecuen, Argentina; junto ao coletivo Entrelaçadas, na Aliança Francesa de Salvador (2022) e no mesmo ano, Revisitando Leila Reinert, na Funarte-SP, com o Grupo 7+; as coletivas Resistência, Casa Galeria (2024) e Confluências, Funarte-SP (2025). Além da produção artística, a artista ministra oficinas de práticas artísticas desde 2020.
Das negativas – bordados, correntes e tecituras, exposição que Marietta Toledo apresenta na Casagaleria, a partir de 06 de março p. f., é um desdobramento das pesquisas que se iniciam com o recolhimento de tecidos descartados, costurados, recortados e remontados os quais, algumas vezes, enrodilharam- se sobre si mesmos formando casulos circulares de tecidos, em tons contrastantes, sublinhando a motivação da artista sobre “circularidades” do mundo. O observador, diante do trabalho, põe-se a interrogar aquelas formas que giram em si, girando a grande roda, numa movimentação que se desdobra e se multiplica. Essas mesmas circularidades se adensam, superpõem tecituras, agregam matéria, bordados ganham corpo e se tornam bordados matéricos. Fios se soltam, serpenteiam, enredam-se a procura de outras dimensões. Um dia, todos esses elementos, que ora constroem a linguagem de Marietta, tiveram origem naqueles tecidos costurados, recortados e remontados; agora são correntes trançadas ocupando um cubo, são circularidades que nos fazem embarcar em artimanhas, em giros e ardis visuais; nos trapaceiam visualmente ao nos enredar na imaginação da artista nutrida no mundo da vida.
Ao procurar definir sua linguagem e o título da presente mostra, Marietta cita Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, (…) Não alcancei a celebridade do emplastro,
não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento (…) Somadas umas cousas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente sai quite com a vida. E imaginará mal, porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: não tive filhos, não transmitia nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
Marietta Toledo caminha entre pontes que distam “não-lugares”. Não quer excessos, apenas uma arquitetura vertiginosa de bordados, tecituras e correntes. Subterfúgios que subvertem a linguagem, sem ornamentos, só tensões: com cada ponto bordado, cada laçada de agulha, cada trama feita, pacientemente, Marietta urde o indivisível, aquilo que a percepção não coloca à parte. Mas, o mesmo mundo que a sensibiliza a faz pincelar seus trabalhos com fenômenos estéticos que obscurecem as conquistas obvias da lógica. Talvez estejam aí, então, as artimanhas secretas do mundo que habita e a habita.