Nun – Águas profundas, efervecência e criação
Madu Almeida (São Paulo, 1952)
Nun – Águas profundas, efervecência e criação, exposição que Madu Almeida apresenta na Casagaleria, a partir de 17 de abril p. f . , faz uma referência ao seu processo criador, o qual emerge como uma potência na obtenção de um novo sentido para seu trabalho.
O mundo é visto, pela artista, como movimento e transformação constantes, da onde nasce a própria vida. Madu quer organizar essa movimentação como linguagem artística, percebendo que a “pintura é uma sensação em ato, é visão; e como ao mesmo tempo é visíve l , é auto-figuração,- é reflexão sobre si mesma” . É um ver vendo o mundo tornando-o visível em obra.
Como materializar o acontecimento de um olhar como ato de ver?
É nesse momento que Madu lembra de Nun, deus da mitologia egípcia que dá existência ao mundo.
Assim como Chronos, o deus do universo na mitologia grega, filho do Céu (Urano) e da Terra (Gaia), Nun (Nu, Nenu ou Nunu) é o pai de todos os deuses egípcios, uma divindade primordial. Nun é uma força cósmica que viria das águas caóticas e insondáveis que existiam antes da criação do mundo, um oceano primordial do
qual surgiram o universo e os deuses criadores. Madu traz essa simbologia para dizer que a criação artística tem sua gênese num ato de ver como surgimento.
E é isso que a faz conceber a presente exposição Nun – Águas profundas, efervecência e criação. Mas Madu brinca, também, com as águas profundas. Brinca com o oceano criando uma profundidade de pinturas azuis que nos oferece um olhar de um quase afogamento, um olhar sem fôlego mas que, com a força
da criação e com o desejo de viver, emerge das águas profundas, mostrando- se ao surgir.
Em outras pinturas, traz pedaços de estilhaços, como que recolhidos em suas andanças pelos mares. Deposita-os como reverência aos percursos feitos simbolicamente. E traz,
ainda, uma árvore que dela brotou, em vez de folhas e frutos, pedaços de materiais recolhidos na superfície da cidade. Uma árvore que já não é capaz de dar vida à sua própria natureza, nas palavras da própria artista.
Nesse horizonte, a motivação que sustenta a prática artística de Madu Almeida pode ser pensada à luz de Nun — não apenas como a água primordial da cosmogonia egípcia, mas como um regime de latência, como é o próprio ato criador. Nun não é forma, mas potência; não é imagem, mas condição mesma de emergência das imagens como uma visão em ato. Ao acionar essa matriz simbólica, Madu não recorre a ideia de origem como retorno, mas como ativação: um campo aberto para ser explorado, onde o mundo encontra-se para ser apreendido como formação, como forma-em-ação. Sua obra aproxima-se, assim, de um território pré-formal, onde matéria, gesto e tempo se entrelaçam em permanente instabilidade.
Nun – Águas profundas, efervecência e criação situa um olhar que, também, invoca o colapso do tempo em que vivemos. Mas há, também, a insistência em reinscrever o gesto artístico como possibilidade de reencantamento.
Suas formas fragmentadas, suas composições instáveis e sua atenção às águas da natureza configuram uma prática que não recusa o caos, mas o incorpora como força geradora. E a fragmentação aqui não é ruptura, mas proliferação. Cada elemento carrega vestígios de uma totalidade irrecuperável, ao mesmo tempo que aponta para novas configurações possíveis. É nesse jogo entre ordem e desordem, entre contenção e expansão, que sua obra encontra potência — não como resolução, mas como abertura.
Carmen Aranha e Loly Demercian